Os índices de inflação são instrumentos para medir a variação dos preços e o seu impacto no mercado e no custo de vida da população, que surgiram a partir da criação do salário mínimo na década de 50. O mais famoso e utilizado entre eles é o índice oficial de inflação, relacionado às metas estabelecidas pelo governo federal, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre os dias 1º e 30 de cada mês. Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Fazenda, entre abril de 2007 e 2008 a inflação total acelerou de 3% para 5,04%. A inflação de alimentos saltou de 4,63% para 12,62% e a dos demais itens passou de 2,56% para 3,03%. Confira a seguir os motivos desse aumento, como isso influencia na sua vida e o que pode ser feito para conter a alta.
Causas internas e externas
Esse ano, a inflação vem ficando acima do centro da meta do IPCA, de 4,5%. Dois fatores fundamentais vem contribuindo para esse cenário. Um interno, que é a crescente expansão da demanda baseada em consumo e um externo, que é a forte valorização dos insumos agrícolas e do petróleo.
No Brasil, insumos alimentares básicos e combustíveis tem puxado pra cima a inflação. Carne e feijão estão entre os itens que mais tiveram aumento de preços. Segundo o consultor financeiro Cláudio Boriola, isso tornou o efeito inflacionário inevitável no país.
Mas, com certeza, o cenário externo tem contribuído bastante para o aumento da inflação. Recentemente, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que esse movimento vem acontecendo em todo o mundo. De acordo com o consultor Cláudio, há uma crise no mercado de crédito americano, a economia chinesa deu uma esfriada e há ainda uma sombra de dúvida sobre uma eventual crise mundial de alimentos. "O Brasil, país inserido neste contexto global, acaba sendo afetado, talvez até menos que o esperado, dado o ótimo momento da economia nacional”, sublinha.
Em outra declaração, o Ministro da Fazenda afirmou também que grande parte da inflação mundial de commodities - produtos básicos com cotação mundial, como aço, petróleo, milho e soja - é causada pela especulação. O consultor Cláudio Boriola explica que a especulação sempre está presente em todos os mercados do mundo, mas é fato que em momentos de insegurança, a volatilidade prevalece e se de um lado deixa os investidores sob uma nuvem de incerteza, abre-se uma oportunidade para os especuladores de curto prazo que esperam ganhos rápidos. "Os especuladores estão aí, mas nada são do que uma conseqüência (e não a causa) da crise atual”, diz.
Alta dos alimentos e etanol
Sobre a polêmica acerca da alta dos preços dos alimentos devido à diminuição de áreas disponíveis para plantio com a produção de etanol, Cláudio explica que a discussão tem um fundamento muito mais político do que técnico. "Do ponto de vista técnico, o etanol da cana (do modelo brasileiro) é muito mais produtivo que o etanol do milho (atualmente utilizado) e não compromete a alimentação uma vez que o consumo de açúcar de cana é substancialmente menor que o de milho, além de ser facilmente substituído por açúcar de beterraba”. Para ele, a discussão política refere-se à quebra de barreiras protecionistas que seria necessária para comercialização do etanol nos EUA e na Europa, além da quebra dos cartéis do setor energético dessas regiões. "É uma discussão densa e de difícil solução atualmente”, diz.
Aumento de juros é uma saída
Um aumento de inflação fora dos níveis esperados certamente afeta o PIB, trazendo um crescimento real do PIB abaixo do esperado, pelo efeito da alta generalizada dos preços de mercado. De acordo com Cláudio Boriola, o aumento de juros é uma das maneiras de se controlar a inflação e tem se mostrado muito eficiente no caso brasileiro. "Com o aumento dos juros, menos pessoas estão dispostas a consumir (ou porque não querem pagar juros altos ou porque preferem poupar e serem remuneradas) e, com isso, os preços não sobem, o que mantém a inflação sob controle”. E complementa: "Combater a inflação não possui uma fórmula pronta e única”.
O Ministro da Fazenda Guido Mantega ainda previu que a inflação deve desacelerar somente a partir do último trimestre deste ano e será provocada pela retração na demanda por alimentos - que tiveram os preços aumentados em até 12,62% - e pelo próprio impacto da elevação dos índices no poder aquisitivo da população de baixa renda. O consultor Cláudio concorda em parte com essa previsão. Para ele, é preciso lembrar que o Brasil está num contexto mundial e que parte dos efeitos adversos da alta dos preços dos alimentos se deve a uma crise em âmbito global.
Cláudio explica que muitos analistas concordam que a alta atual dos juros é momentânea e que logo voltaremos a ter juros mais baixos. Mas ele adverte que este cenário de juros altos pode se prolongar se a crise mundial se prolongar também. "Um exemplo disso aconteceu com a Argentina recentemente. Com a falta de poder de compra do consumidor argentino e a alta dos preços de alimentos no mundo, produtores argentinos preferiam exportar seus insumos produzidos, o que causou uma falta de alimentos no país”, lembra o consultor que admite que estamos longe de uma situação parecida, mas igualmente sujeitos a tais fatores.
Investimento produtivo
Uma maneira saudável de se resolver o problema da inflação seria o estímulo ao investimento no Brasil, o que tornaria os mercados mais competitivos e mais dinâmicos. É o que pensa o consultor financeiro. Em mercados competitivos em crescimento, a demanda cresce fortemente, junto com a capacidade produtiva, porém sem aumento generalizado de preços. "Seria algo parecido com o que está ocorrendo agora no setor de telecomunicações, que está passando por profundas mudanças com o início da televisão digital no Brasil”, conclui.
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